Notas do desenvolvimento de RuneQuest 7 na Chaosium

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Já não é mais novidade que o magnífico RuneQuest 6ª edição da The Design Mechanism (TDM) será descontinuado em julho deste ano, dando lugar à 7ª encarnação do jogo, que a Chaosium preferiu chamar de 4ª edição, porque será a 4ª edição publicada pela empresa. Achei um certo desrespeito com a Mongoose Publishing e suas duas edições (RuneQuest I e II) e com TDM (RuneQuest 6ª edição), que fizeram trabalhos incríveis, mas é assim que será.

Já expliquei alhures as mudanças pelas quais passou a Chaosium e que, na época, disse que Lawrence Whitaker e Pete Nash (autores de RQ6 e donos da TDM) seriam editores da linha RuneQuest. Não serão mais. Desde que a Chaosium decidiu reeditar o jogo eles saíram da empresa e RQ6 será descontinuado em julho deste ano, quando acaba o contrato. Na verdade, a empresa vai continuar publicando o jogo, mas com outro nome, exatamente como fez a Mongoose quando perdeu a marca pra TDM, mudando o nome do RuneQuest II pra Legend. Também este um excelente jogo e compatível com o RQ 6 da TDM.

Mythras

Mythras, o novo nome de RuneQuest 6 depois que a TDM perder a marca em julho.

O novo nome do RQ6 será Mythras, conforme anunciado no Fórum BRP Central por Lawrence Whitaker. Segundo o autor a escolha se deu porque Mythras tem semelhança com a palavra “Myth” (mito), e o jogo é sobre aventuras míticas, com personagens moldando suas próprias histórias, criando suas lendas e forjando seus próprios mitos. Além disso é referência a uma divindade que aparece nas culturas persa, romana, grega e céltica chamado Mitra (Mithra ou Mithras em inglês). Mitra é um deus guerreiro, protetor dos juramentos e dos pactos, protetor do gado e das águas. No Avesta, textos sagrados do Zoroastrismo, ele é descrito como de largas pastagens, dos mil ouvidos e dos incontáveis olhos.

Voltando à Chaosium e ao tão aguardado RuneQuest 7…

Nos últimos meses a editora publicou uma série de postagens explicando o que está acontecendo com RQ e também sobre o desenvolvimento do jogo. São as postagens a seguir:

Passo agora a resumi-las.

Algumas Respostas

Na Gen Con 2015 eles anunciaram a nova edição de RQ e que seria publicada em 2016, esse ano, sendo a quarta edição do jogo pela Chaosium, já que a 3ª edição da Avalon Hill foi criada pela Chaosium. Em 2013, como expliquei no post anterior (ver o link do “alhures” acima), Greg Stafford vendeu os direitos de Glorantha, RuneQuest e HeroQuest (o RPG, não o de tabuleiro) para a Moon Design. Como agora a Moon Design é uma das proprietárias da Chaosium a Chaosium se tornou licenciada oficial de RuneQuest. O bom filho a casa torna.

A nova edição de RQ será baseada no RuneQuest 2ª edição, que será o documento fundamental da nova encarnação do jogo. Porém, não apenas ele: RQ3 (Avalon Hill), RQ6 (da TDM), Pendragon Pass, Chamado de Cthulhu, o sistema Epic e RQ Dragon Pass Campaign (esses dois últimos nunca foram publicados, mas foram produzidos). Ou seja, um retorno às origens com uma boa dose de modernizações, o que será ótimo.

A boa notícia é que RQ7 incorporará muitos elementos de RQ6 (ufa!), notadamente as perícias Ataque e Aparar combinadas, testes opostos, estilos de combate como Espada e Escudo, localizações de golpe em vez de Pontos de Vida gerais, escalas acima de 100%, ações, soma de duas características para determinar valor inicial de perícias etc. Enquanto mantém o ritmo de combate do antigo RQ2. O interessante é que eles assumem que RQ não é genérico! Então muitos elementos de RQ3 não serão incorporados, pois os próprios criadores do RQ3 os consideravam uma falha.

Aí a grande surpresa. Nunca pensei que isso fosse ocorrer mas… Ken Rolston, o Rune Czar, a lenda viva, está de volta! Ele foi o responsável pela era de ouro de RQ na Avalon Hill. Depois que ele saiu da Avalon Hill o RQ decaiu por lá. Ele é um dos novos editores da linha RQ, que está sendo escrito por muitas mãos, além dele tem o próprio Greg Stafford que é outra lenda e PAI do RQ e de Glorantha. Desconfio que Sandy “CoC” Petersen também esteja dando seus palpites.

E aí voltamos a questão do sistema não ser genérico. RQ1 e RQ2 não eram genéricos. Eram sistema criados para o mundo de Glorantha. E, agora que Glorantha retornou às mãos da Chaosium, RQ passa a ser publicado novamente com o cenário original, reforçando a interação do jogador com o cenário através das regras, e este cenário é Glorantha.

Eles começaram fazendo um Kickstarter para reimprimir o RQ2 (já cabou). Foi um sucesso com 2.176 contribuidores, arrecadando mais de US$ 200 mil. E eu perdi isso porque o dólar tava de matar e o frete era um chute nas bolas.

Metas para RQ7

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Esboço da planilha de personagem com a Zzabur’s Sigil acima, à direita, paixões à esquerda, embaixo, lembrando Pendragon. E abaixo à direita uma espécie de árvore da vida (sepher sephiroth), com as runas opostas.

Quem está conduzindo o projeto RQ é o Jeff Richard. É claro que aquelas lendas que citei antes estão trabalhando nisso, mas o líder e responsável pelo projeto é o Jeff. E ele definiu quatro metas principais:

  • RQ será baseado em Glorantha.
  • Será mantida certa compatibilidade com o antigo RQ2.
  • Retorno das RUNAS como cerne do jogo e da mecânica do jogo.
  • Prover incentivos profundos para os personagens terem imersão total no cenário.

A primeira meta já está praticamente pronta. O livro Guide to Glorantha, publicado pela Moon Design foi um sucesso e ganhou o prêmio 2015 Diana Jones Award. Será reimpresso devido à alta demanda.

A segunda meta é resultado natural do sucesso do Kickstarter já mencionado. Jeff Richard afirma que RQ2 não apenas está de volta à prensa como se tornou uma linha de produtos principal! Muitos suplementos clássicos foram ou serão reimpressos: Apple Lane, Snake Pipe Hollow, Cults of Prax, Cults of Terror, Pavis, Big Rubble, Borderlands, Griffin Mountain e Trollpak.

O que tem ocupado mais tempo, segundo Jeff, é a terceira meta, as Runas. Elas tem que estar ligadas não apenas à Magia Rúnica como também à personalidade dos personagens. Será algo mais ou menos como os traços de personalidade do jogo Pendragon (clássico aclamadíssimo das crônicas arturianas). Ken Rolston diz que as runas tem essa dualidade e que poderiam usar 4 pares de runas opostas, utilizando a Zzabur’s Sigil (estrela de cinco pontas da imagem ao lado, que usa as runas de Glorantha, e foi publicada e usada no jogo HeroQuest, salvo engano). É imersão total em Glorantha, devolve a importância das runas e traz uma mecânica  do Pendragon que funciona muito bem e guia a interpretação dos personagens. Eu amei!

Características Principais de RQ7

becker-agimoriJeff Richard, Ken Rolston e Chris Klug discutiam o que seria a essência de RQ.

Perícias Baseadas em Porcentagem

Isso torna tudo muito mais simples: você olha a perícia, vê uma porcentagem e sabe a chance de sucesso de forma nada intuitiva, é absolutamente óbvio. Dispensa consultas às regras ou conhecimento de regras. os jogadores olham suas fichas para obter inspiração quando não sabem o que fazer numa situação. Caso esteja na ficha, não está no jogo.

Combate em RQ

Mortal e rápido. Um dos charmes do jogo. Com as já conhecidas Localizações de Golpe (dano localizado, como em GURPS). Você pode perder um braço, uma perna, pode ser que sua arma fique presa no corpo do inimigo e por aí vai! Coisa de 3-4 rodadas. Bem mortais mesmo! Deliciosamente realístico e imersivo, como escreveu Jeff Richard.

Simplicidade. Os combates apesar de mortais e realistas são simples: ataque-defesa, ataque-defesa, ataque-dano crítico, membro amputado, ou ataque-falha, escudo cai no chão e braço amputado. Totalmente sangrento… Claro que com o tempo as perícias aumentam muito, chegando nos 95% fácil, o que poderia tornar os combates mais lentos. Porém, a mecânica também considera que os personagens evoluirão nos cultos rúnicos a que pertencem e ganharão magias que tornarão os combates novamente mortais e rápidos, reequilibrando a simplicidade e mortalidade do jogo.

Regra 90/10

Seria 90% de conforto e familiaridade e 10% de inovação a regra para qualquer produto de sucesso. Assim a zona de conforto da maioria dos jogadores de RQ é RQ2, daí ele ser a base. Para a nova equipe, que inclui membros da equipe de RQ1, RQ2 e RQ3, o RQ3 introduziu muitas coisas complexas e desnecessárias.

Controvérsias sobre basear em RQ2 e não no RQ6

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Ensaio. Clique para ampliar.

Eles tinham a intenção original de fazer de RQ7 uma versão aperfeiçoada RQ6, mas viram no meio do caminho que RQ2 seria melhor. E aí discutem o porquê na Parte III.

RQ retornou ao lar

RQ retornou à Chaosium como explicado. Como a licença para TDM acabava em julho eles preferiram, em vez de renovar, trazer o jogo de volta pra casa. Então eles trouxeram Loz (Lawrence Whitaker) e Pete (Nash), autores de RQ6 para serem editores da linha RQ, pois RQ 6 já é a versão preferida do RQ para muitos jogadores inclusive para o Francioli Araújo, do falecido Forja RPG. Ele mestrou Forgotten Realms com RQ6!

Só que a Chaosium e a dupla Loz/Pete tiveram divergências criativas e aí se separaram.

Aperfeiçoando o sistema

Discutiam como fazer isso. Seria um livro de 450 páginas (!!!), cerca de 300 só de Glorantha, restando pouco pro sistema. Então reduziriam algumas coisas. Começou a ficar parecido com RQ2/3, não ficaram satisfeitos mas ficou claro que teria que ser um híbrido RQ2/6. O que não agradaria nem fãs de RQ2 nem fãs de RQ6. Então entraram com a regra 90/10 já explicada. Inserindo ainda as mecânicas das paixões de Pendragon.

Sinceramente acho que o sistema vai agradar alguns fãs antigos do RQ2 e novos fãs, mas o pessoal do RQ6 vai continuar com a TDM. Vai por mim, RQ6 é foda. Muita gente migrou do RQ5 (RuneQuest II) pro RQ6, mas muita gente continuou com o RQ5, agora chamado Legend. Pois em essência são o mesmo sistema. Loz/Pete escreveram RQ5 e 6. E Legend é só um RQ5 revisado. No entanto, aposto no sucesso dessa nova empreitada. O Kickstarter mostrou que vai funcionar.

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Sobre Nerun

Advogado, historiador, numismata, nerd, colecionador de quadrinhos, RPGista, e super fã de GURPS.