Declínio da SJ Games e de GURPS

Estava lendo o tradicional Report to the Stakeholders (Reporte às Partes Interessadas) publicado anualmente pela Steve Jackson Games. Stakeholder é uma pessoa ou um grupo que legitima as ações de uma organização e que tem um papel direto ou indireto na gestão e resultados dessa mesma empresa. Entre as informações interessantes desse Reporte estão: o valor das receitas e produtos lançados, fracassos e sucessos da empresa. Resolvi analisar os reportes desde 2003 até os dias de hoje e conclui que…

GURPS não é mais a menina dos olhos há muito tempo…

Munchkin é o carro chefe da companhia e tem mais de 65 expansões. Representou 70% das vendas em 2007 e 75% das vendas em 2011, chegando a ser vendido em 15 línguas. No reporte de 2012 (referente à 2011), numa lista dos 40 produtos mais vendidos pela empresa em dólares, GURPS aparecia apenas na 32ª posição. Sendo que 32 itens da lista eram de Munchkin! Foi a primeira vez que a empresa adicionou essa lista em seus reportes. No reporte de 2013, GURPS caiu para a 39ª posição dessa lista, saindo dela em definitivo no reporte de 2014. GURPS no entanto, é o mais vendido na Warehouse 23, a loja virtual da editora, segundo ela própria.

Em 2004, quando saiu GURPS 4ª edição eles ficaram muito contentes com a repercussão da nova edição e com as vendas. No entanto, já tinham planos de se tornar mais “digitais” e oferecer mais PDFs. E, no ano seguinte, a famosa e estreante e23 (agora chamada de Warehouse 23), havia vendido 1.000 PDFs!!! Foi um sucesso e continuou assim nos anos seguintes. Dobrou as vendas em 2008. E seguiu acrescentando todos os livros de GURPS em PDF.

No entanto, já em 2007, a empresa notou um declínio do RPG como um todo, não apenas na SJ Games. Em 2006 eles disseram que a Games Workshop cancelou sua linha de Warhammer RPG porque a linha de romances vendia mais que o próprio jogo! Apesar disso, naquele ano as vendas de GURPS permaneciam estáveis, pois a 4ª edição ainda era uma novidade.

Em 2010 veio o primeiro sinal da queda de vendas dos livros físicos de GURPS. Com o lançamento de GURPS Low-Tech (capa-dura, colorido) veio a descoberta de que as vendas do livro impresso foram MUITO decepcionantes porém, as vendas em PDF do mesmo livro foram boas!

Em 2011 a e23 era a 2ª ou 3ª loja que mais vendia PDFs para a comunidade de jogadores!

O que pude ler até 2012 é que os produtos impressos de GURPS foram praticamente abandonados, e eles concentraram as vendas em PDFs, pois estavam dando mais retorno lá. Apesar de estarem planejando GURPS Zombies para 2013. E de fato veio, junto com uma grande enchente que alagou quase todo o Estado do Texas e a cidade de Austin, onde fica a sede da empresa.

Em 2014 eles não produziram nada de novo em GURPS, alegando que o time de GURPS foi realocado para outras atividades que geravam mais lucro. E, como dito acima, foi o ano em que o sistema saiu da lista dos 40 mais vendidos da editora.

No reporte de 2015, eles estavam tentando imprimir o GURPS Discworld e Mars Attacks, que só veio no ano seguinte. E soltaram um desabafo:

Os livros impressos de GURPS são um desafio para produzir lucrativamente neste momento. Nossos recursos investidos em livros físicos – que tomam muito mais esforço do que os jogos de cartas e tabuleiro devido ao tamanho e à necessidade de artistas – atualmente excedem o valor esperado pelas vendas.

No reporte de 2016, referente a 2015, eles publicaram esses livros, e soltaram a nota decepcionante para nós:

Publicamos dois novos livros capa dura de GURPS no final do ano passado [2015]. Os fãs de GURPS festejaram e os livros ficaram bons, mas o desempenho decepcionante reforçou a infeliz constatação de que as vendas não são mais fortes o suficiente para sustentar a distribuição tradicional de materiais impressos de GURPS. O mercado desordenado de hoje, combinado com a nossa insistência em fazer isso direito, fez com que ambos os livros se tornassem experimentos caros que nos ensinaram uma coisa: não produzir mais livros capa dura de GURPS até ter garantia de que serão vendidos. Isso significa mais financiamento coletivo para GURPS? Talvez! Mas até ver as vendas no varejo do Dungeon Fantasy, seguraremos novos lançamentos impressos de GURPS. Os PDFs continuarão, e vamos rever a questão de “imprimir GURPS?” ainda este ano [2016].

Agora é aguardar o reporte de 2017, que fala sobre 2016, mas deve sair em 2018. Já sabemos que a SJ Games finalmente optou por disponibilizar livros de GURPS em Impressão sob Demanda (Print-On-Demand, ou PoD). Ela torna os livros impressos um pouco mais caros, porque as gráficas imprimem um livro de cada vez, na medida que alguém encomenda um livro. No entanto, isso permite que esteja sempre em “catálogo” caso alguém queira. A maioria dos livros do sistema disponíveis na Amazon são essas versões PoD.

Receitas

Uma preocupante queda nas vendas após um longo período de crescimento vertiginoso. A empresa estava com uma receita mais ou menos estável até 2008 (US$ 2,5 a 3,0 milhões) e começou a crescer em 2008 e acentuadamente a partir de 2010, com ápice em 2012 (US$ 8,8 milhões). Com queda cada vez mais vertiginosa a partir daí, chegando a US$ 6,0 milhões em 2015.

A preocupação é obviamente minha pois, nos dois últimos reportes, a editora se mostra tranquila apesar da queda na receita. Claro que eu fico preocupado. Adoro GURPS e admiro muito a SJ Games e o próprio Steve Jackson. Espero que deem a volta por cima. Meu receio é que Munchkin tenha atingido seu ápice. Nenhum jogo vende muito pra sempre, se ele não se renova. É claro que ele tem mais de 65 expansões, mas ele pode ter se “esgotado” sabe? Enfim, vamos torcer e aguardar.

Finalizando…

Eu não queria parecer apocalíptico, alarmista ou sensacionalista com esse post. Só queria deixar claro qual a posição atual do nosso hobby e da própria empresa. Consolidando muitas coisas que já sabíamos. A primeira é que o hobby (RPG) físico diminuiu de tamanho, e o hobby digital cresceu e domina, não apenas GURPS, mas o RPG como um todo. A segunda é que GURPS é agora um jogo indie (circuito alternativo, de nicho) e não mais mainstream (principal, blockbuster). O que não é demérito, estamos agora entre clássicos maravilhosos como RuneQuest e Rolemaster. E ainda é muito jogado, mas o pessoal prefere comprar PDFs. A Era Física acabou, estamos de vez na Era Digital. A terceira é que RPGs cederam espaço aos boardgames (jogos de tabuleiro) em vendas pelas editoras. A própria editora Daemon, pra citar uma nacional, continua ativa, só mudou de foco: fez um sucessão com o RPGQuest, sendo o maior financiamento coletivo da história do Brasil. E com críticas MUITO positivas.

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Daniel "Nerun" Rodrigues

Graduado em História (2003) e Direito (2009), ambos pela Universidade de São Paulo. Advogado por profissão, roleplayer por paixão. Além disso, sou nerd, numismata, colecionador de quadrinhos, fã de star wars e RPGista super fã de GURPS.

11 thoughts on “Declínio da SJ Games e de GURPS

  • 31/10/2017 em 07:39
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    Bom post. O blog estava meio parado, gostei muito que está voltando à ativa!

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    • 31/10/2017 em 12:57
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      Obrigado amigo!

  • 31/10/2017 em 07:44
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    Lendo seu post, sempre consumi muitos PDFs da SJGames e notei que nao comprei mais nenhum deles ultimamente. Percebi que minha atenção está voltada para os lançamentos feitos por editores menores: Lamentations of the Flame Princess, Evil Hat e um montão de editor pequeno que produz material Fate e OSR em geral. Diabos, até o “Sprawl” (que usa o Apocalipse Engine) me chamou mais a atenção.

    A outra face do problema é que os novos suplementos GURPS não possuem apelo nenhum. Aguardei tanto tempo por um lançamento interessante e os caras da SJ Games me vieram com “Mars Attacks!”. Sério mesmo que não havia mais nada de interessante na lista de submissões?

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    • 31/10/2017 em 12:57
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      Concordo, eu mesmo andei comprando vários PDFs de outros sistemas, até pela falta de apelo e de cuidado da SJ Games. Discworld é uma boa ideia, mas concordo que Mars Attacks não me atrai nem um pouco. Embora tenha gente que tenha gostado, mesmo aqui no Brasil.

  • 31/10/2017 em 13:24
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    É coisa de momento. Se não fosse descontinuariam a produção de livros físicos em definitivo. O próprio report da SJ desconsidera eventos como as sucessivas crises econômicas e a queda do poder de compra das famílias americanas como causa no declínio das vendas, todos os setores da economia sentiram isso. Apesar de não estar no report, os diretores têm consciência do impacto das crises nas vendas, do contrário não teriam mantido a produção. Para confirmar a questão da crise, subiram as vendas dos PDFs e do Munchkin, produtos com valor mais acessível que livros impressos. Absolutamente normal, como o impressionante aumento na venda de ovos enquanto a venda de carne vermelha despencou. Em épocas de dificuldade as pessoas buscam por alternativas mais baratas mesmo, é totalmente comum e inerente à cultura econômica.

    Houve uma febre por PDFs na primeira década do séc. XXI que se prolongou em razão das crises e já está no fim. Como lojista vejo o aumento pela procura de livros físicos de edições extintas que sofreram com a wave de PDFs: vários livros de GURPS 3ª e 4ª ed e D&D 3.5 principalmente.

    Outro fator a considerar é que a boardgame fever nos EUA, que ocupou espaços do RPG, já passou. No Brasil as vendas de boards também já apresentam queda no rítmo de crescimento. Alguns lojistas que conheço investiram pesado em boards e acabaram com milhares de reais em mercadorias trancados nas prateleiras. E falo de boards bem sucedidos e de empresas famosas.

    Enfim, o RPG deve voltar com tudo para reocupar seu espaço nos próximos anos. O mercado está se reabrindo para o RPG. Tudo dependerá também do lançamento de bons títulos, já que as edições de GURPS e D&D do auge do declínio nas vendas não foram lá aquelas maravilhas e ajudaram muito a intensificar a redução de demanda provocada pelas crises.

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    • 31/10/2017 em 13:28
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      Apenas para anotação, esse comentário foi postado pelo autor no Facebook, no GURPS Group Brasil. Tomei a liberdade de reproduzir aqui porque julguei a análise dele muito boa e acrescenta muito a essa discussão (link para post original no Facebook).

  • 31/10/2017 em 20:34
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    Uau! Artigo esclarecedor. Fico chateado pelo rumo que está tomando, mas me satisfaz o fato da SJG ter tanta transparência. Obrigado pela excelente análise, Nerun. E que o GURPS nunca chegue ao limbo, ou seja só mais um RPG jogado por poucos… Vida longa e próspera.

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  • 15/12/2017 em 21:05
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    Fala Daniel!

    Aqui no RJ eu tenho feito a minha parte para manter o GURPS vivo e forte.

    Tenho uma mesa fixa na loja Bolsa do Infinito que é sancionada pela Wizards of The Coast para receber torneios de MAGIC, mas o RPG e os Boardgames tem espaço cativo.

    Me impressiona que a mesa de GURPS tem sempre mais jogadores querendo conhecer o sistema e as aventuras que eu proponho.

    Faço um convite a todos os amigos do blog e a você, para quando estiver com um espaço na agenda vir até a loja para jogar conosco!

    Sou um leitor assíduo do blog e aguardo sempre as novas postagens.

    Forte abraço!

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    • 16/12/2017 em 12:31
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      Olá Vinícius! Bom saber dos seus esforços, e que as pessoas ainda querem conhecer o sistema. O dia que for ao RJ, quem sabe eu apareça por aí 😉

      Forte abraço!

  • 01/01/2018 em 15:19
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    Difícil manter a tradição. Mas eu e meus amigos retornamos ao jogo desde 2016 e estamos mantendo. A Devir não lançou o Gurps Magia como prometido para a 4° edição e isso nos desanimou muito, mas seguimos firme. Adoramos gurps e é uma pena que o rpg de mesa e as vendas estejam em declínio.

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    • 02/01/2018 em 15:14
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      O Magia faz muita falta. Dá pra ficar sem os outros, mas o magia é quase um módulo básico.

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