Padrões monetários da Idade Média

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Florin de ouro de Florença, ano 1340

Alta Idade Média

O padrão monetário vigente em TODA a Europa durante a Idade Média foi estabelecido em 755 d.C. pelo Rei dos Francos, Pepino o Breve, pai do futuro Imperador Carlos Magno. Esse padrão era baseado no denário (denarius, plural denarii) do antigo Império Romano, e todas as demais moedas eram múltiplos ou frações deste.

O denário era definido como uma moeda de prata pesando um duzentos e quarenta avos (1/240) de libra carolíngea (489,5g) com pureza de 940 (94%). Assim, o denário deveria ter 2,04g de prata. Deveria, mas na prática pesava apenas 1,72g, e media 20mm de diâmetro por 0,5 mm de espessura. A dificuldade em manter padrões de medida e pesar coisas se refletia na variação de peso. Na França variava de 1,68 a 1,72g. Dependendo do reino pesava menos, pois a libra tinha outra medida: nos reinos ingleses era cerca de 1,28g e nos reinos alemães 1,34g (mais próximos da libra romana de 327g).

Carlos Magno encampou esse padrão e tentou disseminá-lo. Durante seu reinado ele teve que editar sucessivas leis forçando sua adoção, porque muitos não aceitavam essas moedas de prata, preferindo usar as antigas moedas de ouro do Império Romano. No fim, os séculos passaram e o padrão venceu, e foi adotado amplamente.

A tabela seguinte apresenta os múltiplos e frações do denário. Os símbolos das moedas, da forma que apareciam nos livros de contabilidade dos monastérios, está em parentêsis.

 £sdob~q/r
Libra (£)120240480960
Solidus (s)1/201122448
Denarius (d)1/2401/12124
Obolus (ob~)1/4801/241/212
Quadrans (q/r)1/9601/481/41/21

O denário (denarius) era a principal moeda. As de valor inferior eram de cobre, bronze, ou bolhão (bilhão), que é uma liga de prata e cobre ou, com maior frequência, as moedas de denário eram cortadas ao meio (obolus) ou em quatro partes (quadrans). Ou seja, não havia nem mesmo outros tipos de moedas de prata! Apenas o Império Romano cunhou moedas de ouro com frequência. Na prática NÃO HAVIA MOEDAS DE OURO circulando.

Na Idade Média davam-se nomes para as moedas em vez de números, porque a maioria da população era analfabeta e não sabia matemática. E a matemática da época usava algarismos romanos… A numeração só apareceu nas moedas na Idade Moderna. Então era muito mais fácil (e até visual) trabalhar com divisores de 2, já que só tinha o denarius circulando: era só dividi-lo por 2 sucessivamente, cortando a moeda.

A libra e o solidus, que exigiam contas mais complicadas (porque usam múltiplos 12 e 20) eram MOEDAS DE CONTA: usadas apenas em livros contábeis de feudos e monastérios. Assim, se algo valia 240d (denarii), então anotava-se 1£ (libra). A economia da Alta Idade Média era muito feudal: pouco desenvolvida, isolacionista e autossuficiente. Somente com o desenvolvimento do comércio e com o afluxo de vultosas somas resultantes das trocas de mercadorias é que se fez necessário usar moedas maiores que o denário, isto é, moedas representando a libra e o solidus.

A Europa só voltaria a cunhar moedas de outros tipos e valores, inclusive de ouro, na Baixa Idade Média, devido ao Renascimento Comercial. Isso foi feito pela primeira vez em Gênova, no ano de 1172, com o “grossus” de prata valendo 4d (ou 1/5 £) e pesando 1,4g de prata. Literalmente “denário grosso”. Depois passou a valer 6d (1,6g), isto é, meio solidus.

Não é que não houvesse moedas de ouro durante o Império Carolíngeo. Havia, mas eram muito raras mesmo. Por exemplo, Luís o Piedoso, único filho adulto sobrevivente de Carlos Magno, tornou-se rei dos francos. Cunhou uma moeda de ouro entre 816 e 821 d.C. – o solidus – pesando 4,37g e medindo 19,7mm de diâmetro. Tão rara, que pouco mais de uma dúzia chegaram até nossos dias!

Mesmo após a queda do Império Carolíngeo todos os países adotaram esse sistema, preservando as proporções de valor, apenas com nomes diferentes, conforme tabela a seguir. Esse padrão, com variações, foi adotado até fins da Idade Moderna. A Inglaterra só trocou esse sistema em 1971, com o Decimal Day.

CarolíngeoAlemanhaInglaterraFrança
LibraPfundPoundLivre
SolidusSchillingShillingSol (Sous)
Denarius (Denarii)Pfenning (Pfennig)Penny (Pence)Denier
ObolusHällerHalf PennyMaille
QuadransKreuzerFarthing?

 

CarolíngeoItáliaEspanhaPortugal
LibraLiraLibraLibra
SolidusSoldo (Soldi)SueldoSoldo (Morabitino)
Denarius (Denarii)DenaroDineroDinheiro
ObolusMedagliaMeajaMealha
QuadransQuartaro??

Como curiosidade, perceba que em PORTUGAL o denarius foi aportuguesado para “dinheiro”, e a “mealha”, equivalente ao obolus, deu origem à expressão “amealhar” (juntar patrimônio) e também à “migalha” (ninharia).

Outra curiosidade, que explica a adoção de múltiplos tão estranhos, usados no sistema britânico até pouco tempo, é a dificuldade de lidar com frações de um valor de forma precisa. Por exemplo, como medir um peso com precisão na Idade Média? É muito mais fácil e intuitivo dividir por 2 sucessivamente ou multiplicar por 2. O óbolo é o denário dividido por 2, e o quadrans é o óbolo dividido por 2.

Metais na Idade Média

Os medievais conheciam apenas sete metais e todas as ligas formadas entre eles: ouro, prata, cobre, estanho, ferro, mercúrio e chumbo. As ligas: bolhão (cobre e prata), bronze (cobre e estanho), electro (ouro e prata) e aço (ferro e carbono).

Não, não tinha PLATINA, ela só foi descoberta no século XVIII,  em 1735 pra ser mais exato. Então nada de moedas de platina na sua mesa! Brincadeira, RPG não é um jogo realista, pode muito bem possuir platina nos seus jogos, mas foge um pouco ao que estava disponível para a ciência da época.

Baixa Idade Média

Esse período se caracterizou pelo Renascimento urbano, cultural, intelectual, científico e comercial. O florescimento do comércio, principalmente com o oriente próximo – com destaque para o papel desempenhado pelas cidades-estado italianas – despertou no ocidente a necessidade de voltar a cunhar moedas de ouro, cunhadas apenas durante o Império Romano. Essas primeiras moedas de ouro representavam a libra (£), isto é, 240 denarii (d).

E começou em Gênova. Sua moeda, o “genovino”, foi emitida em 1252, pesava 3,49g de ouro 24 quilates, com cerca de 20mm de diâmetro. No anverso tinha o portão de um castelo com a inscrição IANVA (“porta” em latim, que dá nome à gênova), e no verso a cruz heráldica com a inscrição CVNRADVS REX (Corrado III, que em 1139 concedeu à Gênova o direito de cunhar moedas). Depois de 1339, com o primeiro duque (“doge”) da República de Gênova, passou-se a usar a inscrição X DVX IANVENSIVM PRIMVS (Primeiro Duque Genovês).

Genovino de ouro de Gênova

Também em 1252, pouco depois de Gênova, e com mais sucesso do que ela, Florença cunhou o florin de ouro, que levava esse nome por causa da flor de lis em uma das faces da moeda: símbolo de Florença. Essa moeda pesava 3,536g de ouro 24 quilates e era equivalente a 240 denarii florentinos. Tinha cerca de 21mm (2,1cm) de diâmetro e cerca de 0,5mm (0,05cm) de espessura. No anverso, levava a flor de lis, com a legenda FLORENTIA e no reverso, o padroeiro desta república italiana, São João Batista, com a inscrição S.(anctus) JOHANNES B.(aptista).

Veneza copiou Florença e cunhou seu próprio florin em 1284, que ficou conhecido como ducado, com a mesma massa e dimensões. Como Veneza era governada por um duque, ganhou rapidamente o apelido de ducado. Além do fato de que o duque estava representado na moeda: no anverso a efígie do doge ajoelhado frente a São Marcos, santo padroeiro de Veneza, e no reverso a imagem de Jesus.

Ducato de ouro de Veneza

Padrão-florin

O florin gozou de grande credibilidade e aceitação (assim como o dólar e o euro hoje), principalmente devido à sua grande pureza (24K) e ao poderio e presença comercial de Florença em toda a Europa.

No século XIV, mais de 150 estados e autoridades locais com poder para cunhar moedas cunharam sua própria versão do florin: cequim (em Veneza), écu (na França), schild (em Flandres), gulden (na Alemanha), guilder (na Inglaterra), zloty (na Polônia), ducado (em vários países europeus), dinar (nos países árabes).

Outra informação importante é que a MAIOR fonte de OURO na Idade Média foi o Reino da Hungria. Só depois da descoberta da América e da colonização da África nos séculos 16 e 17 é que a Hungria declinou, quando então a maior parte do ouro usado na Europa provinha da África! Por isso a Hungria também cunhou seu próprio florin: o forint, em 1325.

Todos esse florins mantiveram a mesma tipologia: peso, dimensões e pureza, mudando apenas os nomes e alguns símbolos para refletir os brasões dos reinos onde eram emitidos.

Para se ter uma ideia do poder aquisitivo de um florin, em 1250 equivalia a US$215 americanos atuais (2019), e a partir de 1450 alcança os US$300.

Idade Moderna

Com o tempo alguns Estados começaram a reduzir a pureza do ouro: Aragão reduziu para 18K (75%). Isso acabou desprestigiando o florin, levando à adoção do ducado de Veneza como moeda de ouro-referência, isso por volta do século 15.

Ou seja, na Alta Idade Média predominava o denário, na Baixa Idade Média o florin e na Idade Moderna o ducado.

O padrão monetário na Idade Moderna trouxe números impressos nas moedas. Todas as moedas, fossem de cobre, prata ou ouro, tinham seu valor impresso. O advento da Era da Razão facilitou muito as coisas, ainda que as moedas tivessem valores um pouco estranhos quando comparados ao sistema decimal adotado atualmente.

Em Portugal e suas colônias, inclusive Brasil, circularam moedas com valores impressos (apelidos em parêntesis):

  • Cobre: 5, 10, 20 (vintém), 40 e 80 (tostão) réis
  • Prata: 20 (vintém), 40, 80 (tostão), 160, 320 (pataca), 640 e 960 (patacão) réis
  • Ouro: 400 (escudo), 800, 1.000 (dobrão), 1.600, 2.000, 3.200, 4.000, 6.400, 10.000, 12.800 (dobra) e 20.000 (dobrão) réis

O Dobrão Espanhol

Primeiro dobrão, de 1497

O dobrão foi o apelido de uma moeda de ouro espanhola que valia 2 escudos ou 32 reales espanhóis e pesava 6,77 gramas. Foi introduzida na Espanha em 1497 pelos Reis Católicos. O dobrão passou a designar qualquer moeda de ouro cunhada em qualquer parte do império espanhol que valesse 2 ou mais escudos. Assim havia o dobrão de quatro (13,5g) e o dobrão de oito (27g).

O apelido “dobrão” surgiu porque a moeda pesava o equivalente a dois ducados, e também por causa da dupla face dois Reis Católicos de espanha.

Apesar da maior popularidade do dobrão espanhol. O dobrão português de 20.000 réis pesava 53,8g (16 ducados) e foi a maior moeda de valor intrínseco que circulou no mundo. Apesar da inscrição 20.000, ele valia de fato 24.000 réis na época, ou 1/4 do preço de uma escrava jovem. Hoje essa moeda, cunhada em 1724, pode valer até R$100.000 entre colecionadores! As cunhadas entre 1725-27 valem menos, meros R$25.000.

Nos jogos de RPG

Podemos fazer algumas alterações no Dungeons & Dragons.

Pra começar, vamos manter o padrão 1 – 10 – 100, que funciona muito bem conforme eu expliquei em A desvalorização do dinheiro em D&D.

A maioria dos reinos europeus adotava o denarius de prata como principal moeda (variando o nome). E o peso nunca era muito maior que 2g, frequentemente variava entre 1,0-1,7g. O problema é que qualquer coisa de 1,7g ou menor é muito pequeno como moeda, e extremamente fino. Então podemos reduzir o peso oficial da moeda de 10g pra 2g.

Para ficar maleável, fixamos a espessura em 1 mm (0,1 cm). O que ainda é bem fino, mas aceitável. As moedas de real são de quase 2 mm, mas uma moeda de 320 réis de prata, de 1696 (da minha coleção), tem 8,96g, 3 cm de diâmetro e apenas 1,2 mm de espessura. Eu gostei dessa espessura, é boa de pegar.

Com essa massa e com essa espessura, o diâmetro, em valores arredondados fica em:
Ouro: 1,2 cm
Prata: 1,6 cm
Cobre: 1,7 cm (= moeda de R$0,01)

Pequeninas não é? Mas a maioria delas era mesmo muito pequena nos sistemas medievais. O penny inglês variava de 1,0-1,6g. O dinheiro português variou de 0,8-1,0g. As moedas de ouro poderiam chegar a 3,5-4,5g, mas valiam muito mais.

Se preferir 4g, mantendo a espessura em 1 mm:
Ouro: 1,6 cm
Prata: 2,2 cm (= moeda de R$0,05)
Cobre: 2,4 cm (= meio termo entre R$0,25 e R$0,50)

Fica fácil e bem mais realista transportar tesouros com moedas pesando 2 ou 4g e com um tamanho bastante manuseável. Eu prefiro 4g, porque é amiorzinha, tem um bom tamanho e espessura.

Com isso você pode criar seus próprios padrões monetários. Bons nomes para moedas são Florins e Ducados, mas a Coroa inglesa também é muito sonora. Alguém já sugeriu, em algum grupo de D&D, o nome Dragão. Soa muito bem e é muito apropriado: “mil dragões de ouro para quem me trouxer a cabeça daquele infeliz”!

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