Padrões monetários da Idade Média

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Florin de ouro de Florença, ano 1340

Alta Idade Média

O padrão monetário vigente em TODA a Europa durante a Idade Média foi estabelecido por volta de 800 d.C. pelo Imperador Carlos Magno. Esse padrão era baseado no denário (denarius, plural denarii) do antigo Império Romano, e todas as demais moedas eram múltiplos ou frações deste.

O denário era definido como uma moeda de prata pesando 1/240 de libra (£) carolíngea com pureza de 23 quilates (95,8%). Essa libra pesava 489,6g. Assim, o denário deveria ter 2,04g de prata. Na prática eles pesavam apenas 1,725g. É como se a libra carolíngea fosse de 414g.

O valor nominal dos múltiplos e frações do denário é conforme a tabela seguinte. Os símbolos das moedas, conforme apareciam nos livros de contabilidade dos monastérios está em parentêsis.

  Libra Solidus Denarius Obolus Quadrans
Libra (£) 1 20 240 480 960
Solidus (s) 1/20 1 12 24 48
Denarius (d) 1/240 1/12 1 2 4
Obolus (ob~) 1/480 1/24 1/2 1 2
Quadrans (q/r) 1/960 1/48 1/4 1/2 1

Na prática NÃO HAVIA MOEDAS DE OURO circulando. O denário era a principal moeda, e era de prata, as demais de valor inferior eram de cobre, ou de bolhão (bilhão), que é uma liga de prata e cobre ou, até mesmo, moedas de denário cortadas ao meio ou em quatro partes. Apenas o Império Romano cunhou moedas de ouro.

A Libra e o Solidus eram MOEDAS DE CONTABILIDADE: eram usadas apenas em livros de contabilidade de feudos e monastérios. Assim, se você tinha algo que valia 240d (denarii), então você anotava 1£ (libra). Essas duas “moedas” nunca foram cunhadas, porque não era necessário. A economia da Alta Idade Média era pouco desenvolvida, muito feudal (isolacionista). Somente com o desenvolvimento do comércio e com o afluxo de vultosas somas resultantes das trocas de mercadorias é que se fez necessário usar essas moedas.

A Europa só voltaria a cunhar moedas de ouro, para representar valores referentes a libra e ao solidus, na Alta idade Média, com o Renascimento.

Mesmo após a queda do Império Carolíngeo todos os países adotaram esse sistema, preservando as proporções de valor, apenas com nomes diferentes, conforme tabela a seguir. Esse padrão, com variações, foi adotado até fins da Idade Moderna. A Inglaterra só trocou esse sistema depois da entrada na União Européia, adotando um sistema decimal.

Carolíngeo Alemanha Espanha França Inglaterra Itália Portugal
Libra ? Libra Livre Pound Lira Libra
Solidus ? Sueldo Sol (Sous) Shilling Soldo (Soldi) Soldo
Denarius (Denarii) Pfenning Dinero Denier Penny (Pence) Denaro Dinheiro
Obolus ? Meaja ? Half Penny ? Mealha
Quadrans ? ? ? Farthing ? ?

Como curiosidade, perceba que em PORTUGAL o denarius foi aportuguesado para “dinheiro”, e a “mealha”, equivalente ao obolus, deu origem à expressão “amealhar”, isto é, juntar patrimônio.

Além dessas variações de nome, cada reino também criou outras moedas conforme a necessidade local, representando frações ou múltiplos desse padrão carolíngeo. Por exemplo, em Gênova, na Itália, no ano de 1172 surgiu o Grossus de prata, equivalente a 4d (1/60 £).

Metais na Idade Média

Os medievais conheciam apenas sete metais e todas as ligas formadas entre eles: ouro, prata, cobre, estanho, ferro, mercúrio e chumbo. As ligas: bolhão (cobre e prata), bronze (cobre e estanho), electro (outro e prata) e aço (ferro e carbono).

Não, não tinha PLATINA, ela só foi descoberta no século XVI,  em 1735 pra ser mais exato. Então nada de moedas de platina na sua mesa! Brincadeira, RPG não é um jogo realista, pode muito bem possuir platina nos seus jogos, mas foge um pouco ao que estava disponível para a ciência da época.

Baixa Idade Média

Esse período se caracterizou pelo Renascimento Urbano, Cultural, Intelectual, Científico e Comercial. O florescimento do comércio, principalmente com o oriente próximo – com destaque para o papel desempenhado pelas cidades-estado italianas – despertou no ocidente a necessidade de voltar a cunhar moedas de ouro, cunhadas apenas durante o Império Romano. Essas primeiras moedas de ouro representavam a libra (£), isto é, 240 denarii (d).

E começou em Gênova. Sua moeda, o “genovino”, foi emitida em 1252, pesava 3,49g de ouro 24 quilates, comc erca de 20mm de diâmetro. No anverso tinha o portão de um castelo com a inscrição IANVA (“porta” em latim, que dá nome à gênova), e no verso a cruz heráldica com a inscrição CVNRADVS REX (Corrado III, que em 1139 concedeu à Gênova o direito de cunhar moedas). Depois de 1339, com o primeiro doge (duque) da República de Gênova, passou-se a usar a inscrição X DVX IANVENSIVM PRIMVS (Primeiro Duque Genovês).

Genovino de ouro de Gênova

Também em 1252, pouco depois de Gênova, e com mais sucesso do que ela, Florença cunhou o florin de ouro, que levava esse nome por causa da flor de lis em uma das faces da moeda: símbolo de Florença. Essa moeda pesava 3,536g de ouro 24 quilates e era equivalente a 240 denarii florentinos. Tinha cerca de 21mm (2,1cm) de diâmetro e cerca de 0,5mm (0,05cm) de espessura. No anverso, levava a flor de lis, com a legenda FLORENTIA e no reverso, o padroeiro desta república italiana, São João Batista, com a inscrição S.(anctus) JOHANNES B.(aptista).

Veneza copiou Florença e cunhou seu próprio florin em 1284, que ficou conhecido como ducado, com a mesma massa e dimensões. Como Veneza era governada por um Duque (“doge”), ganhou rapidamente o apelido de ducado. Além do fato de que o duque estava representado na moeda. Apresentava no anverso a efígie do doge ajoelhado frente a São Marcos, santo padroeiro de Veneza, e no reverso a imagem de Jesus.

Ducato de ouro de Veneza

Padrão-florin

O florin gozou de grande credibildiade e aceitação (assim como o dólar e o euro hoje), principalmente devido à sua grande pureza (24K) e ao poderio e presença comercial de Florença em toda a Europa.

No século XIV, mais de 150 estados e autoridades locais com poder para cunhar moedas cunharam sua própria versão do florin: cequim (em Veneza), écu (na França), schild (em Flandres), gulden (na Alemanha), guilder (na Inglaterra), zloty (na Polônia), ducado (em vários países europeus), dinar (nos países árabes).

Outra informação importante é que a MAIOR fonte de OURO da Idade Média foi o Reino da Hungria. Só depois da descoberta da América e da colonização da África nos séculos 16 e 17 é que a Hungria declinou. A maior parte do ouro usado na Europa vinha da África! Assim sendo, a Hungria tinha seu próprio florin também: o forint, cunhado em 1325.

Todos esse florins mantiveram a mesma tipologia: peso, dimensões e pureza, mudando apenas os nomes e alguns símbolos para refletir os brasões dos reinos onde eram emitidos.

Para se ter uma ideia do poder aquisitivo de um florin, em 1250 o florin equivalia a US$215 americanos atuais (2019), e a partir de 1450 alcança os US$300.

Idade Moderna

Com o tempo alguns Estados começaram a reduzir a pureza do ouro: Aragão reduziu para 18K (75%). Isso acabou desprestigiando o florin, levando à adoção do ducado de Veneza como moeda de ouro-referência, isso por volta do século 15.

Ou seja, na Baixa Idade Média predominava o denário, na Alta idade Média o florin e na Idade Moderna o ducado.

O padrão monetário na Idade Moderna trouxe números impressos nas moedas. Todas as moedas, fossem de cobre, prata ou ouro, tinham seu valor impresso. O advento da Era da Razão facilitou muito as coisas, ainda que as moedas tivessem valores um pouco estranhos quando comparados ao sistema decimal adota atualmente.

Em Portugal e suas colônias, inclusive Brasil, circularam moedas com valores impressos (apelidos em parêntesis):

  • Cobre: 5, 10, 20 (vintém), 40 e 80 (tostão) réis
  • Prata: 20 (vintém), 40, 80 (tostão), 160, 320 (pataca), 640 e 960 (patacão) réis
  • Ouro: 400 (escudo), 800, 1.000 (dobrão), 1.600, 2.000, 3.200, 4.000, 6.400, 10.000, 12.800 (dobra) e 20.000 (dobrão) réis

Nos jogos de RPG

Podemos fazer algumas alterações no Dungeons & Dragons, por exemplo. Podemos reduzir o peso oficial da moeda de 10g pra 3,5g e adotar essas dimensões de 0,05 cm de espessura (meio milímetro) por 2 cm de diâmetro. Para facilitar os cálculos, podemos arredondar para 4g cada moeda, e manter o padrão 1 – 10 – 100, que funciona muito bem conforme eu expliquei em A desvalorização do dinheiro em D&D.

Fica fácil, e realista, transportar tesouros com moedas pesando 4g e com um tamanho bem manuseável.

Com isso você pode criar seus próprios padrões monetários. Bons nomes para moedas são Florins e Ducados, mas a Coroa inglesa também é muito “sonora”. Alguém já sugeriu, em algum grupo de D&D, o nome “Dragão”. Soa muito bem e é muito apropriado: “mil dragões de ouro para quem me trouxer a cabeça daquele infeliz”!

Mas é isso, vou encerrar por aqui, forte abraço!

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