RuneQuest, Basic Roleplaying, Legend, OpenQuest e G.O.R.E.

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Artigo revisado em 17 de Junho de 2020

O que RuneQuest (RQ), Basic Roleplaying (BRP), Legend, OpenQuest (OQ) e G.O.R.E., têm em comum é o fato de usarem todos o mesmo sistema, às vezes chamado de Sistema d100. Esse sistema é de origem antiga e, embora atualizado, guarda certa aura Old School, um termo em moda atualmente. O sistema se consagrou na década de 1980, inicialmente em jogos de fantasia, sobretudo RQ, enquanto que BRP dava sinais de evoluir para se tornar um sistema genérico e universal. Já OQ e GORE apareceram nesta década de 2010, como clones de RQ e BRP respectivamente. Vamos voltar às origens e falar um pouco de cada um. Enquanto Legend é uma versão OGL do RQ.

RuneQuest 1ª edição (RQ1)

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Em 1978, foi publicada a primeira edição de RQ, pela Chaosium, tendo por autores: Steve Perrin, Ray Turney, Steve Henderson, Warren James e Greg Stafford. Foi o primeiro RPG baseado em sistema de perícias. Sim, isso mesmo. Se hoje praticamente todos os sistemas possuem sistema de uso de perícias para realizar ações e que refletem os conhecimentos dos personagens, é porque RQ criou isso. Além dessa inovação, trouxe outras: não havia limitação de classes; trazia um mundo próprio integrado; a experiência era adquirida diretamente e não distribuída pelo Mestre (se você usava uma perícia, adicionava cada sucesso ao lado da perícia, se acumulava o suficiente então você evoluía um nível nela); os monstros na prática eram PCs do Mestre, isto é, não tinham sistema próprio, PCs e NPCs eram construídos da mesma forma, como são hoje em GURPS e outros sistemas; combates realistas e mortais etc. Como dito, ele vinha com um cenário pronto pra uso: Glorantha, do Greg Stafford.

O nome do jogo “Rune”, proveio da popularidade na década de 1970 do uso de runas como método de adivinhação.

RuneQuest 2ª edição (RQ2)

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Em 1979 a Chaosium lança o que seria seu maior sucesso: RuneQuest 2ª Edição (RQ2). Este já era grande e tinha umas 130 páginas. Foi o segundo RPG mais jogado depois de AD&D. Teve mais de 20 suplementos lançados até 1983.

Basic Roleplaying 1ª edição

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Em 1980, Greg Stafford e Lynn Willis, publicaram a primeira edição do BRP, também pela Chaosium. Era um livreto de 16 páginas contendo uma versão simplificada do RQ. Ou seja, o BRP derivou do RQ e não o contrário. Pra quem não sabe, o BRP virou o sistema adotado nos jogos: Call of Cthulhu, ElfQuest, Superworld, Elric, Stormbringer, Hawkmoon, Ringworld e outros. E, através do Call of Cthulhu, influenciou o Sistema Daemon, do Marcelo Del Debbio.

01dEm 1982 a Chaosium tenta emplacar seu primeiro sistema genérico, o Worlds of Wonder, que era uma versão do BRP de 1980 com outros três livretos de 16 páginas cada: Magic World (um RQ simplificado), Superworld, e Future*World (com * pra não confundir com o filme do Yul Brenner de 1976). Desses, apenas o Superworld gozou de alguma aceitação.

RuneQuest 3ª edição (RQ3)

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Mas em 1984 a Chaosium não estava bem das pernas e teve que decidir entre vender os direitos autorais do Call of Cthulhu e os direitos do RQ. Advinha qual ela vendeu? O RQ claro, pra Avalon Hill. O acordo previa o desenvolvimento do RuneQuest 3ª Edição (RQ3) pela equipe da Chaosium, que então venderia os direitos desse RQ3 para a Avalon Hill. No entanto, esse acordo não incluía o mundo de Glorantha, que permaneceu com a Chaosium e com Greg Stafford. RQ3 não fez tanto sucesso quanto RQ2, mas foi publicado de 1984 até 1995. O sistema mudou muita coisa em relação ao RQ2 e acabou não agradando a todos os jogadores. Além disso a Avalon Hill não deu suporte adequado ao produto.

RuneQuest: rascunho de uma 4ª edição

Em ano incerto, a Avalon Hill, pelas mãos de Oliver Jovanovic, a princípio com apoio da Chaosium e de Greg Stafford, iniciou um projeto para lançar o RuneQuest: Adventures in Glorantha (RQ:AiG), que incluiria o mundo de Glorantha e atualização de regras do RQ, no que ficou conhecido como um RQ3.5 por alguns, porque na prática nunca foi publicado. A intenção é que esta se tornasse a 4ª edição.

A razão do insucesso da empreitada que lançaria o RQ:AiG veio em abril de 1994, quando Ken Rolston, conhecido como “Rune Czar”, deixou a Avalon Hill. Em consequência disso o RQ parou de receber suporte apropriado desagradando aos fãs do sistema e a Greg Stafford, assim naquele ano a Chaosium e a Avalon Hill cortaram relações, foi o fim da tentativa de publicar o RQ:AiG juntamente com o cenário de Glorantha, acabando com a clássica parceria.

A Avalon Hill e Oliver Jovanovic tentaram achar outro cenário para o RQ:AiG, só que aconteceu o inimaginável: Jovanovic foi acusado de crimes sexuais. O episódio ganhou repercussão nacional nos EUA, ele foi demitido da Avalon Hill, preso em 1996, condenado em 1998, libertado em 1999, teve um novo julgamento em 2001 e o caso foi encerrado porque a mulher não foi depor (era um caso de sadomasoquismo, depois provou-se que foi consensual). Nesse ínterim, RuneQuest foi associado com uma espécie de seita sexual!!! Infâmia nacional… RQ:AiG foi enterrado de vez, sem nunca ser publicado.

Complicações Legais

A situação ficou assim: a Chaosium detinha todos os direitos de Glorantha, enquanto que a Avalon Hill ficou com os direitos da marca e do sistema RQ.

Mas aí, em 1997, a Chaosium criou a Issaries Inc, que tentou publicar o Glorantha usando outro sistema, mais tarde conhecido como HeroWars e depois HeroQuest, mas não foi adiante e não fez sucesso.

No mesmo ano a Avalon Hill publicou o RuneQuest: Slayers, mas que nunca chegou a ser um RQ4. Na verdade era um sistema completamente diferente, eles apenas tentaram usar o nome conhecido para promover o jogo. A empreitada não vingou.

Em 1998 a Hasbro incorporou a Avalon Hill e encerrou o RuneQuest: Slayers. Eles mudaram o nome pra RuneSlayer e liberaram gratuitamente na internet.

Mas aí veio o grande medo: a Hasbro engoliu também a Wizards of the Coast, que tinha engolido a TSR, que era proprietária do AD&D!!! Com a licença d20 os fãs ficaram com medo de nunca mais ver o RQ. O que de certa forma se concretizou, pois de 1997 a 2002 os anos foram deprimentes para os fãs: nenhum material novo foi publicado e as revistas virtuais especializadas foram desaparecendo.

Basic Roleplaying 2ª edição

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Em 2002, a Chaosium, que a essa altura não mais estava associada à Greg Stafford ou à Issaries, anunciou a publicação do BRP de novo. Lembremos que BRP e RQ são sistemas irmãos, e as regras são muito parecidas. Houve muitos rumores e especulações na época. O resultado foi o lançamento de um livreto de 16 páginas com as regras básicas.

Luz no fim do túnel…

Em 2003, a Hasbro / WotC / Avalon Hill deixaram os direitos da marca RQ expirar, pois não tinham mais interesse nele, e a Issaries o adquiriu. Enquanto que as regras do sistema RQ foram parar nas mãos da Chaosium de novo por desuso. Não sei se tal ocorreu devido à uma cláusula contratual ou se devido ao item 3º, do §203 do título 17 do United States Code, que prevê a “Rescisão das transferências e licenças concedidas pelo autor”. De qualquer modo os advogados da Hasbro confirmaram isso. Assim RQ foi salvo das mãos da perversa Hasbro / WotC, mas o sistema RQ e a marca RQ estavam separados em duas entidades completamente diferentes: Issaries e Chaosium.

Basic Roleplaying 3ª edição

Em 2004, a Chaosium publica as quatro monographs (monografias) do BRP: Players Book, Magic Book, Creatures Book e Gamemaster Book. Esse conjunto de livretos depois viria a ser chamado de Deluxe BRP, e nada mais eram do que as regras do RQ3 reimpressas, mas sem o nome RuneQuest e sem referências à Glorantha, já que ambos eram propriedade da Issaries, empresa do Greg Stafford.

runequestRuneQuest 4ª edição (RQ4), o renascer

Em 2005, Greg Stafford deu uma de esperto. Ele tinha o nome RuneQuest, mas não tinha o sistema RuneQuest, então ele fez um acordo com a Mongoose Publishing para editar um novo RQ com novas regras. Na verdade eram as mesmas regras, mas descritas com outras palavras.

O uso das regras foi possível devido a uma brecha na Lei de Direitos Autorais dos Estados Unidos (USC, Title 17, Chapter 1, §102. E no flier 108 do United States Copyright Office, órgão dos EUA responsável por registrar copyrights e interpretar a lei de copyright). Essa mesma brecha também existe na lei brasileira (lei 9.610/98, art. 8º, incisos I e II). De acordo com essas legislações os direitos autorais e o copyright não protegem a forma de jogar, o método ou métodos de jogo. Uma vez tornado público, nada impede que outra pessoa desenvolva jogo similar. Eles protegem apenas a forma particular de um autor se expressar literária ou artisticamente. Os direitos autorais não protegem as regras de jogo em si, mas apenas o texto usado para descrevê-las. Assim, se a Mongoose utilizasse as mesmas regras do jogo, mas as escrevesse com outras palavras, ela não estaria violando os direitos da Chaosium.

E em 2006, em acordo com a Issaries, a Mongoose publicou o RuneQuest (RQ4, MRQ ou MRQ I). Essa sim a verdadeira 4ª edição do jogo. Esse sistema foi publicado debaixo da Open Game License (OGL) e foi disponibilizada um System Reference Document (SRD) dele, que é um Documento de Referência do Sistema, um conjunto de arquivos texto com a descrição das regras do jogo, destinada aos desenvolvedores de jogos.

Basic Roleplaying 4ª edição

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Em 2008 a Chaosium, se aproveitando do revival do antigo sistema promovido pela Mongoose, surpreende lançando uma nova edição do BRP com cerca de 400 páginas, um verdadeiro módulo básico! O sistema é genérico e universal e tem as melhores características dos BRP e RQ anteriores. Há quem diga que é possível replicar o RQ3 usando o BRP da Chaosium com muito mais perfeição do que o MRQ. Esse sistema é o usado no Call of Cthulhu.

RuneQuest 5ª edição (RQ5)

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Em 2010 a Mongoose publica uma versão revisada e melhorada do MRQ I, chamado de RuneQuest II (RQ5 ou MRQ II). Essa revisão foi feita para se parecer mais com o antigo RQ, com o fito de agradar aos fãs mais antigos que não gostaram do primeiro MRQ, além de corrigir diversos desequilíbrios e inconsistências das regras. Só que esse MRQ II não foi disponibilizado sob a OGL, para tristeza geral.

Movimento Jogo Livre (OGL)

No meio de tudo isso, temos que a Mongoose já tinha liberado a sua versão do sistema pela OGL. E algumas empresas e indivíduos não perderam tempo e desenvolveram seus próprios jogos com ela.

A Goblinoid Games publicou o sistema Generic Old school Roleplaying Engine ou GORE. A Goblinoid usou tanto a OGL da Mongoose quanto a estratégia do Greg Stafford, e criou um sistema clone do BRP da Chaosium, só que Open Game (OGL). Porém não é tão completo, tem apenas 55 páginas. Algumas pessoas o comparam com o “BRP Lite”. A diferença é que enquanto o MRQ I e II são voltados para fantasia medieval, o GORE é mais voltado para horror, como o próprio nome e a capa sugerem, num estilo próximo do Chamado de Cthulhu, e bastante compatível com o BRP. Apesar do enfoque no horror, ele é sim genérico como o BRP. Pode ser baixado gratuitamente no DriveThruRPG.

Em setembro de 2009, a D101 Games publica o OpenQuest (OQ), também OGL, baseado na SRD do MRQ I da Mongoose. Em setembro de 2013 publicou a segunda edição, o OpenQuest 2 (OQ2). E em setembro de 2017 houve uma “refreshed edition”, chamada apenas de OpenQuest, que parece ser somente uma repaginada na aparência do livro, sem alterar as regras. Está à venda por US$10 no DriveThruRPG. Há também uma versão gratuita chamada OpenQuest Basic Edition.

RuneQuest 6ª edição (RQ6)

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Em meados de Julho de 2011, Lawrence Withaker, cofundador da The Design Mechanism (TDM), anunciou a assinatura de um acordo com a Issaries (detentora da marca RuneQuest) pelo qual a TDM passa a ser o novo licenciado para publicação do jogo RuneQuest. O MRQ I e II foram publicados pela Mongoose sob licença da Issaries. A partir de 2012, a TDM passou a publicar a nova edição, o RuneQuest 6ª Edição (RQ6).

Lawrence Withaker e Pete Nash trabalharam na Mongoose e escreveram o MRQ II. O resultado agradou bastante aos fãs com sua publicação em Julho de 2012.

Legend, sucessor do MRQ II

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Com a perda dos direitos de uso do nome RuneQuest para a TDM, a Mongoose anunciou a mudança do nome do seu MRQ II para Legend, mas assegurou que as regras são exatamente as mesmas, de modo que quem comprou o MRQ II não precisou adquirir o novo Legend, publicado em Outubro de 2011. Esse sistema, que é em essência o MRQ II, foi liberado pela OGL, o que agradou bastante, pois acabou corrigindo o “erro” de não ter liberado o MRQ II.

E os ventos mudaram, de novo…

Greg Stafford tinha voltado de uma estadia de um ano no México [nota] decidido a passar para alguma outra editora o peso de administrar a Issaries. Ele o fez em 2013: os direitos de Glorantha, RuneQuest e HeroQuest (o jogo de RPG, não o tabuleiro) foram VENDIDOS para a Moon Design Publications. Essa empresa estava licenciando (alugando) a marca e o mundo de Glorantha, publicando livros e suplementos para ele.

Enquanto isso a Chaosium tava mal das pernas. Eles fizeram o financiamento coletivo do Call of Cthulhu 7ª edição que arrecadou US$560 mil, que era pra ter sido entregue aos apoiadores em Outubro de 2013, mas em 2015 ainda não havia sido entregue.

Em 2 de Junho de 2015 a Chaosium anuncia que Greg Stafford e Sandy Petersen (criador do jogo Call of Cthulhu e co-autor da 2a edição de RuneQuest) retornaram à Chaosium. O velho time retornou ao lar! Greg Stafford como novo presidente da companhia.

Em 30 de Julho de 2015, durante a GEN CON, Greg Stafford anuncia que, procurando soluções para os problemas internos, a Moon Design comprou PARTE da Chaosium. No acordo que teve, ela transferiu os direitos de Glorantha, RuneQuest e HeroQuest para a Chaosium. Com isso Glorantha e RuneQuest voltam para a empresa que os criou!!!

A Chaosium saiu fortalecida, porque Rick Meints (da Moon Design) virou o presidente da Chaosium e Greg Stafford o presidente do Conselho de Administração. Os diretores e o Conselho são membros eleitos pelos acionistas para supervisionar as atividades de uma empresa. Ou seja, o velho time se uniu ao novo!

Logo depois disso, Ken Rolston, o “Rune Czar” da Avalon Hill retornou à Chaosium para compor o time de lendas, se tornando editor da linha RuneQuest mais uma vez!

Em 4 de Fevereiro de 2016, Chaosium anuncia que Steve Perrin, criador de RuneQuest, retorna à Chaosium para ajudar a desenvolver a 7ª edição do jogo. As lendas ouviram o chamado e regressaram todas ao lar!

Inicialmente era pra Lawrence Withaker e Pete Nash da TDM deixarem a TDM e se tornarem editores da linha RuneQuest da Chaosium, mas deu ruim. A Chaosium decidiu reeditar o RuneQuest, houve um desentendimento criativo entre eles e a Chaosium, que queria algo mais próximo do RuneQuest 2ª edição que do RuneQuest 6ª edição desenvolvido pela dupla da TDM. Então a TDM perdeu a licença do RuneQuest em Julho de 2016. Acho também que com todo esse pessoal das antigas de volta a nova dupla não teria muito espaço mesmo…

Mythras, sucessor do RQ6

A TDM e a dupla dinâmica Lawrence Withaker e Pete Nash não ficaram parados e republicaram as regras do RQ6 com o nome Mythras, agradando sua base de fãs. Além dele há o “Mythras Imperative”, uma versão Light / Lite / Fastplay das regras, totalmente gratuito e traduzido para o português.

A Macaco Dumal é o parceiro oficial da The Design Mechanism no Brasil. Foram eles que traduziram o Mythras Imperativo e liberaram pra download no Dungeonist em 20 de Dezembro de 2019 após campanha bem sucedida no Catarse para financiar a versão impressa do mesmo. Arrecadou R$2.052,00. Bem pouco, ridículo até, mas temos que considerar que é apenas uma versão fastplay (quem vai comprar isso?) e que o Mythras / RuneQuest é bem desconhecido por essas bandas.

Alan Rozante está por trás da Macaco Dumal. Ele informou no grupo oficial do Mythras no Facebook (em 9 de Junho de 2020) que a intenção é lançar o financiamento coletivo do livro básico do Mythras ainda em 2020, e que não ocorreu antes por conta da pandemia.

RuneQuest 7ª edição (RQ7)

Publicado em 2018 com o nome RuneQuest – Roleplaying in Glorantha. Só teve um porém aqui: o pessoal da Chaosium não considera essa a 7ª edição, e sim a 4ª edição, ignorando as versões da Mongoose e da TDM. EU achei um pouco desrespeitoso, mas ok. Apesar disso, a repercussão foi muito positiva, sendo muito bem resenhado e elogiado pela crítica e jogadores.

Infelizmente nem tudo são flores. Greg Stafford faleceu no mesmo ano, em 10 de Outubro de 2018.

Sites de Referência:

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