Steve Jackson readquire direitos sobre The Fantasy Trip

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Uma das consequências em ser historiador é que você se interessa por coisas antigas e pela origem e passado das coisas. Foi por isso que acabei pesquisando sobre GURPS e descobrindo seu antecessor direto: The Fantasy Trip (TFT). Recentemente, o designer de jogos Steve Jackson (GURPS, Ogre, Car Wars entre outros jogos) e presidente da Steve Jackson Games, readquiriu os direitos sobre o clássico TFT.

Um jovem projetista de jogos

Steve Jackson formou-se pela Rice University em Houston, Texas em 1974, com especialização em biologia e ciência política. Depois que se formou foi para a Universidade do Texas para estudar Direito, mas largou para seguir carreira de projetista de jogos.

Iniciou rápido a sua carreira, indo trabalhar para a recém fundada (em 1975) Metagaming Concepts. Para a Metagaming ele escreveu:

  • 1976 – Monsters! Monsters! – fantasia medieval com jogadores no papel dos monstros (estilo AD&D: Reverse Dungeon), baseado em anotações de Ken St. Andre. Sendo essencialmente as mesmas regras de outra criação de Ken, o famoso jogo Tunnels & Trolls.
  • 1976 – Godsfire – jogo de conquista espacial em 3D.
  • 1977 – OGRE – distopia futurista com tanques gigantes providos de Inteligência Artificial.
  • 1977 – Melee – combate medieval, origem do TFT. Essencialmente um jogo de escaramuças, não era um RPG.
  • 1977 – Wizard – mesmas regras do Melee, mas com magos e feitiços.
  • 1978 – G.E.V. – um spin-off de OGRE, mas com outros veículos.
  • 1978 – Death Test – aventura para Melee/Wizard.
  • 1980 – Death Test 2 – aventura para Melee/Wizard.
  • 1980 – The Fantasy Trip – Advanced Melee – foi quando o jogo se tornou de fato um RPG, dando regras mais avançadas ao Melee e ao Wizard.
  • 1980 – The Fantasy Trip – Advanced Wizard – regras avançadas para usuários de magia.
  • 1980 – The Fantasy Trip – In the Labyrinth – uma espécie de Livro do Mestre para aventuras em masmorras.
  • 1980 – The Fantasy Trip – Adventure Supplement – Tollenkar’s Lair – aventura.

Pra resumir, o jogo The Fantasy Trip inclui 4 livros: Advanced Melee, Advanced Wizard, In the Labyrinth e Tollenkar’s Lair. Além destes, tem o Melee e o Wizard e as aventuras deles que são Death Test e Death Test 2. Se você tivesse os “Advanceds” você não precisaria do Melee ou do Wizard. Foram escritos alguns outros suplementos e aventuras, mas esses 8 livros são os que foram escritos pelo próprio Steve Jackson e foi sobre eles que ele readquiriu os direitos.

DOWNLOAD de TODOS os jogos da linha THE FANTASY TRIP

Saindo da Metagaming

A Metagaming cresceu graças a um conceito de negócios muito esperto pra época. Estamos falando dos anos de 1975 até 1983, quando a empresa fechou as portas. O modelo de vendas era baseado em Microgames, um conceito criado por Howard Thompson, fundador e dono da empresa.

Microgames eram jogos muito baratos pra época, principalmente pra crianças (público alvo). A primeira edição do Melee foi vendida à US$2,95 (cerca de US$12,00 hoje). Microgames consistiam em pequenos livretos de regras (não mais que 30 páginas num formato menor que A5), uma folha cartonada com peças (“contadores”, antecessor das miniaturas, muito usado em wargames), um mapa dobrado e um pequeno dado de seis faces. Tudo isso inserido dentro de um saco plástico parecido com Zip Lock. Eram jogos pequenos e flexíveis de modo que poderiam ser levados no bolso de trás da calça. O conceito foi um sucesso.

DOWNLOAD de (quase) TODOS os jogos da METAGAMING, exceto THE FANTASY TRIP

Quando os jogos de escaramuça (jogos táticos) Melee e Wizard explodiram em sucesso, ficou claro para Howard Thompson e Steve Jackson que um RPG baseado nessas regras deveria ser feito. Mas foi na hora de publicar o jogo que as diferenças entre ambos vieram à tona.

Steve Jackson queria um único livro de regras, uma aventura, mapas coloridos, dados e muitas peças de jogo, tudo numa caixa, custando US$20,00 (cerca de US$60,00 hoje). Howard achou isso muito caro! Ele queria três livros de regras (US$5 cada) e um de aventura (US$3). No final das contas os livros de regras sairiam por US$15, um pouco mais em conta que o planejado por Steve Jackson.

Surgiram outras diferenças entre ambos. Howard Thompson achou que Steve Jackson demorou muito tempo pra criar o jogo (3 anos) e que TFT era complexo demais, mas Steve Jackson queria um balanceamento perfeito entre realismo e jogabilidade. De fato, ele chegou a se juntar à Society for Creative Anachronism (SCA) – uma sociedade dedicada a estudar e reproduzir a cultura da Europa Medieval, com combates de armadura e espada, arqueirismo e cavalaria.

Seja como for, o jogo foi publicado em Março de 1980 e foi um sucesso, ficando atrás apenas de Dungeons & Dragons até o fechamento da empresa em 1983.

O desentendimento entre ambos continuou e Steve Jackson deixou a empresa em Maio de 1980, apenas dois meses depois de publicado o TFT. Na saída, ele fez um acordo com o Howard Thompson e levou os direitos de parte dos jogos que ele havia criado (OGRE, GEV e outros), mas perdeu os do TFT. No mesmo ano ele fundou a Steve Jackson Games, que foi um sucesso espetacular em tudo que fez.

Em 1983 a Metagaming fechou as portas e Howard Thompson vendeu boa parte de seus ativos (jogos). Steve Jackson tentou reaver os direitos do jogo, mas Thompson pediu a quantia absurda de US$250.000 (algo como US$622.000 nos dias atuais)! Logo se percebe que ele não tinha muito apreço pelo Steve…

GURPS: nasce uma lenda

Steve Jackson já tinha sua legião de fãs, e eles estavam esperando por um novo jogo dele desde 1980. E Steve havia prometido um. Nascia em 1985 o GURPS Man to Man. A primeira encarnação de GURPS já com esse nome.

Man to Man era o GURPS como nós conhecemos hoje, mas tinha apenas a criação de personagens (20 páginas), o sistema de combate medieval (35 páginas) e cenários (4 páginas), além de vários mapas, fichas de personagem, tabelas e miniaturas cartonadas (as outras 21 páginas). Ou seja, seguia o mesmo padrão do The Fantasy Trip, e continuava sendo apenas um jogo de escaramuça, para ser usado como um boardgame de batalhas voltado apenas para combate medieval, SEM fantasia ou magia. A criação de personagens já tinha os 4 atributos básicos e o sistema de perícias e vantagens, além de defesas passiva e ativa. Era a espinha dorsal do GURPS 3ª edição.

Man to Man teve um suplemento de combate, o GURPS Man to Man: Orcslayer, publicado ainda em 1985 com 48 páginas. Era uma campanha, mas não era RPG ainda, ainda era só combate. Mas nada impedia que já nessa época se usasse GURPS para jogar RPG.

Em 1986 veio a primeira edição do RPG. Sim, dos livros de regras completas e não apenas combate e, dessa vez, genérico e universal e não apenas medieval. Uma história das edições de GURPS você encontra aqui: GURPS 5ª edição? Um histórico de GURPS.

Voltando ao assunto do título…

Os direitos sobre The Fantasy Trip

Jackson e seu filhote

Aqui as coisas ficam divertidas. Como visto, os direitos eram da Metagaming, o Steve Jackson não conseguiu ficar com o jogo no acordo que fez com o Thompson, embora tenha levado consigo sucessos como OGRE e GEV.

Só que existe uma lei americana MUITO interessante… Os EUA possuem um código chamado United States Code (USC) ou Código dos Estados Unidos (dooh!), que é só uma compilação das leis dos EUA reorganizadas de 7 em 7 anos. Nesse código, no Título 17, §203 (lê-se parágrafo 203) consta a “Rescisão das transferências e licenças concedidas pelo autor”. No item (3) temos:

(3) A cessação da subvenção pode ser efetuada a qualquer momento durante um período de cinco anos a contar do final de trinta e cinco anos a contar da data de execução da subvenção; ou, se a subvenção abranger o direito de publicação do trabalho, o período começa no final de trinta e cinco anos a partir da data de publicação do trabalho no âmbito da concessão ou no final de quarenta anos a partir da data de execução do contrato de concessão, aquele que terminar mais cedo.

Traduzindo o juridiquês: quando você publica algo por uma empresa lá, você subvenciona, cede o direito de publicação para a empresa. Para reavê-lo só comprando ou esperando o prazo que essa lei menciona. A lei diz que depois de 35 anos contados da primeira publicação, você tem um período de 5 anos para exercer o seu direito de solicitar a cessação da subvenção e readquirir seus direitos de graça!

Além desse item, tem o 4 e o 4(a), não vou reproduzi-los, mas resumirei: você tem que mandar uma carta para a editora ou seus herdeiros legais (Metagaming não existe mais, no caso é Howard Thompson e herdeiros) avisando que a subvenção se encerrará dali há 2 anos. Findo o prazo, TODOS os direitos de publicação do seu trabalho retornam para você!

Melee, o primeiro título, foi publicado em 1977. Assim, 35 anos depois, o período de cessação da subvenção iniciou em 2012 e se encerraria em 2017 (período de 5 anos). O último título, os livros do The Fantasy Trip foram publicados em Março de 1980, então a cessação da subvenção iniciou em 2015 e terminaria em 2020.

Bem, no último ano da cessação da subvenção do Melee, o Steve Jackson notificou Howard Thompson ou seus herdeiros, não sei bem, o que se deu em 17 de Maio de 2015. Solicitando a cessação da subvenção de todos os 8 livros de TFT que ele escreveu. Dois anos depois, em 17 de Maio de 2017, TODOS os direitos de The Fantasy Trip reverteram para Steve Jackson!

As notícias

A notícia oficial veio a público em 26 de Dezembro de 2017 (como eu perdi isso???), e foi publicada no Daily Illuminator, o site de notícias da SJG. Pode ser lida clicando aqui. As discussões sobre essa notícia no fórum da SJG podem ser lidas clicando aqui.

Já existe um fórum específico para TFT na SJG, e pode ser acessado clicando aqui. Lá já existe uma longa, muito longa discussão de 53 páginas e 521 postagens sobre esse feito, que pode ser lida clicando aqui. Dezenas de fãs do antigo TFT estão comemorando. Pessoas como Sean Punch (vulgo Kromm), David Pulver, e o próprio Steve Jackson estão discutindo com diversos fãs o futuro de TFT na editora. Todos os três são fãs antigos e ardorosos do jogo.

Além disso a SJG já criou uma página para o jogo em seu site, que você acessa clicando aqui.

Boa parte das explicações que dei acima para as questões legais sobre TFT eu tirei desses links acima. Continuei sapecando neles, nos dois tópicos que citei do fórum da SJG e no site oficial por hora, e resumo as coisas aqui:

(1) Todo esse material do TFT será republicado, isto é, aqueles 8 livros que mencionei acima em “Um jovem projetista de jogos”.

(2) Nada decidido ainda sobre o formato, muita coisa em aberto inclusive se pretendem atualizar as regras ou não, e o que deve ser atualizado. Estão discutindo isso no fórum.

(3) Não há cronograma de lançamentos nem formatos decididos, mas é certo que haverá um Financiamento Coletivo no Kickstarter do Melee ainda em 2018, com várias miniaturas!

(4) Entre as mudanças, Steve Jackson quer uma apresentação moderna, mas gosta das regras como estão, em sua maior parte, pretendendo mudar apenas no custo de feitiços e evolução do personagem.

(5) Não será possível usar a arte (ilustrações) das edições antigas, porque os direitos não incluem a arte, apenas a marca TFT e as regras em si. O que me parece bom, eles vão poder modernizar o jogo. Entretanto Steve Jackson achava a arte excelente e ficou chateado por isso. Era boa sim, mas era Old School para os padrões atuais e, na minha opinião, muito escassa. Apesar disso ele entrou em contato com Pat Hidy, um dos ilustradores originais, ele quer juntar o velho grupo.

(6) O que isso significa para GURPS? Nada. Sequer pretende unir os sistemas. TFT é bem mais simples que GURPS, mais simples até que GURPS Lite (ao menos o Melee/Wizard), e otimizado para sessões curtas e exploração de masmorras. Podendo coexistir nas estantes da loja e da sua coleção particular!

(7) Sobre as publicações de TFT que o S. Jackson não escreveu, ele não possui esses direitos e não pode reivindicá-los. Estou falando das aventuras para o TFT Advanced “Forest Lords of Dihad” e “Warrior Lords of Darok”, e sete aventuras para Melee/Wizard como “The Lords of Underearth”, “Grail Quest”, “Treasure of the Silver Dragon”, “Security Station”, “Unicorn Gold”, “Master of the Amulets” e “Orb Quest”. Tudo bem, a SJG pode criar coisa melhor se quiser.

(8) Parece haver uma tendência retrô na SJG com a republicação de antigos clássicos como OGRE, Car Wars, Triplanetary e agora TFT. Steve Jackson diz ser possível outros relançamentos também.

(9) Como era de se esperar, com uma legião de fãs da velha guarda, surgiram os retroclones. Clones do TFT, o mais famoso é da empresa Dark City Games chamado Legends of the Ancient World. Steve Jackson está conversando com o George Dew, dono da Dark City, pra tentar acabar com essas “regras clone” até 2019-2020, mas permitindo que os fãs publiquem suas próprias aventuras sob a bandeira do TFT. Nos moldes do que a Wizards faz com o D&D no Dungeon Masters Guild. Porque o grosso das publicações da Dark City são mesmo aventuras, muitas mesmo.

Encerrando…

Já tem uma página oficial do TFT no Facebosta: https://www.facebook.com/TheFantasyTrip/.

Há uma entrevista curta do SJ na RPGnet, em inglês se você desejar ler.

Pronto, acabei, isso é tudo! Post longo né? Mas tá tudo bem explicadinho. Quem sabe, no futuro, eu resenhe o TFT. Aliás, tenho uma surpresa pra vocês, que deve chegar logo…

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